sexta-feira, 31 de maio de 2013

PERDOARÁS..



 Perdoarás, mas perdoarás compreendendo  que o perdão te coloca na galeria de virtudes especiais , diante daquele a quem hajas brindado com a luta benevolência.

Perdoarás , reconhecendo que poderias estar no lugar dele.

Examinarás todo o acervo de sentimentos e pensamentos , impulsos e ações que te definem a personalidade e perguntarás a ti mesmo, sem qualquer subterfúgio , como agirias na posição do ofensor, no momento psicológico em que ele caiu.

Ouvirás a consciência sem fugir-lhe às anotações e perceberás , para logo, que é forçoso sanar o erro: entretanto, observarás claramente que ninguém encontra o clima de compaixão sem a luz do entendimento.

À face disso, quando alguém te apedreje , detém-te por alguns instantes, a fim de enxergar o ocorrido. Alguém juá disse que de 10 partes do ato de ver, nove delas se processam fora dos olhos físicos, nas profundezas da mente.

Através da meditação, ser-te-á possível verificar o agravo como sendo um espinho de raízes envenenadas, infelicitando muito mais o agressor do que a vítima.

Divisarás , desse modo, naquele que te desconsidera ou injuria, o prejuízo da ignorância , a inibição da enfermidade ,  o complexo da angústia ou a cegueira da obsessão.

Feito isso, destacarás , facilmente , não a tua suposta superioridade diante dele, mas sim, distinguirás tuas vantagens, com as oportunidades  de refletir e de auxiliar o que o irmão menos feliz, de muito tempo até agora, não terá conhecido.

Em verdade, nem sempre nas lesões que venham a ocorrer , na esfera do espírito, conseguirás agir a sós, no plano da condescendência absoluta, de vez que existem as postergações de preceitos que não se correlacionam apenas contigo, mas também com as obrigações da justiça, à frente de todos.

E, ainda quando o agravo se caracterize por feição complexa, separando-te provisoriamente daqueles que te feriram, podes atender à lição de Jesus, auxiliando a cada um deles com a bênção da prece, por que em nos referindo aos domínios da alma, em qualquer lugar, a oração é a presença de Deus no coração.

PROPÓSITO DO TEXTO: Essa linda passagem da obra de Chico Xavier – Ditado por Emmanuel - foi aqui reproduzida com o propósito de avaliar o quanto é necessário perdoar.

terça-feira, 28 de maio de 2013

CARRAIADA DANADA...

 
 
 O pandemônio em que se tornou o trânsito em Ijui, segundo  o  especialista Juca M Alves, que tem pós-doutorado na Universidade de Bonn não tem mais solução com meras aplicações de técnicas de sinalização, instrumentos, projetos ou a papagaiada inútil dos que só sabem reclamar e reclamar.
O maior problema é a “carraiada danada “  que vem de todos os lugares da região e de forma abundante. Se forem fazer uma pesquisa em frente aos grandes Hospitais, 80% são carros de outras cidades: Catuípe, Ajuricaba, Santo Ângelo, Pejuçara, Coronel Barros, Condor, Jóia e por ai vai...
Somente uma pista com 5 andares ( e olhe lá..) resolveria o problema de circulação de veículos. O espaço é sempre o mesmo e o número de automóveis crescem de maneira assustadora.
De nada adiantam rótulas, sinaleiras, mão única ou outra salamandra do gênero quando toda a região resolve vir para Ijui e  aqui circular.
Diante da realidade de um grande e incontrolável número de automóveis circulando, não existem mágicas.
Uma das saídas apontadas pelo Juca seria a de os Prefeitos dessas cidades vizinhas investirem em Saúde de tal forma que não mais precisassem mandar seus cidadãos para Ijui. Se isso fosse um dia possível, nossas estradas e ruas ficariam significativa e definitivamente aliviadas e desafogadas.
Ocorre que é um Direito Constitucional fundamental básico o direito de ir e vir. Não existe a possibilidade de proibir que milhares de automóveis de outras regiões escolham Ijui para  (principalmente) tratar seus doentes, fazer compras e trafegar quando bem entenderem.
 Ademais, o comércio lucra com tantas pessoas perambulando por nossa cidade, fazendo aqui suas compras básicas e inúmeras relações que na maioria das vezes resultam em compras de bens e produtos aqui fabricados ou comercializados.
De qualquer forma, o fato é que ( segundo o Juca M Alves) é PATÉTICA e ENGANOSA a ideia de que a criação de mãos únicas, sinaleiras ou o uso de estratégias de circulação se constituirão na panaceia dos problemas de trânsito em Ijuí.
Tais medidas apenas aliviarão o problema por alguns dias e em pouquíssimo tempo mais automóveis vindos de outros municípios farão o caos retornar e com uma intensidade ainda maior.
A ideia de “ALARGAMENTO” das ruas parte de uma ignorância ainda maior, pois Prédios inteiros teriam que ser demolidos e qualquer um sabe que os proprietários exigiriam indenizações milionárias e impossíveis de serem arcadas pelo Poder Público.
O grande problema é está sim na ordem da quantidade: o grande número de carros de TODAS AS REGIÕES POSSÍVEIS que circulam todos os dias na cidade de Ijui.
As demais soluções apontadas não resolverão patavina alguma (em termos de eficácia média ou plena) essa questão tão importante para os que moram e vivem em Ijui.
Está mais que na hora de o Governo do Estado e os Prefeitos da região  investirem mais em Saúde em suas cidades a ponto de atenderem seus doentes ao menos das situações de média complexidade.
O trânsito de Ijui agradeceria.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

SERENIDADE.



A serenidade Divina invade-me após o cumprimento dos deveres. 

Compreendo a minha responsabilidade no conjunto da vida em que me encontro e desligo-me dos conflitos. 

Lúcido, avanço, passo a passo, na conquista da consciência e harmonizo-me, integrando-me no conjunto da obra de Deus. 

Sereno e confiante, nada de mal me atinge. 

* * * 

A serenidade é pedra angular das edificações morais e espirituais da criatura humana, sem a qual muito difíceis se tornam as realizações. 

Resulta de uma conduta correta e uma consciência imparcial, que proporcionam a visão real dos acontecimentos, bem como facultam a identificação dos objetivos da vida, que merecem os valiosos investimentos da existência corporal. 

A serenidade é o estado de consentimento entre o dever e o direito, que se harmonizam a benefício do indivíduo. 

Quando se adquire a consciência asserenada, enfrenta-se toda e qualquer situação com equilíbrio, nunca se permitindo desestruturar. 

As ocorrências, as pessoas e os fenômenos existenciais são considerados nos seus verdadeiros níveis de importância, não se tornando motivo de aflição, por piores se apresentem. 

A pessoa serena é feliz, porque superou os apegos e os desapegos, a ilusão e os desejos, mantendo-se em harmonia em qualquer situação. 

Equilibrada, não se faz vítima de extremos, elegendo o “caminho do meio” como decisão firme, inquebrantável. 

* * * 

A serenidade não é quietação exterior, indiferença, mas, plenitude da ação, destituída de ansiedade ou de receio, de pressa ou de insegurança. 

Jesus, no fragor de todas as batalhas, no expressivo poema das bem-aventuranças ou sendo crucificado, manteve a serenidade, embora de maneiras diferentes, destemido e seguro de si mesmo, com absoluta confiança em Deus. 

Os mártires conheceram a serenidade que o ideal lhes deu, em todas as áreas nas quais lutaram, e, por isso mesmo, não foram atingidos pela impiedade, nem pela perseguição dos maus. 

A serenidade provém, igualmente, da certeza, da confiança no que se sabe, se faz e se é. 

Assim, estudemos a nós mesmos e nos amemos, elegendo o melhor, o duradouro para os nossos dias, e nunca recuaremos. 

No entanto, se errarmos, se nos comprometermos, se nos arrependermos, antes que a culpa nos perturbe, refaçamos o equívoco, recuperando-nos e reconquistando a serenidade. 

Sem ela, experimentaremos sofrimentos que poderíamos evitar, e que nos impedem o avanço. 

Serenidade é vida. 

* * * 

A serenidade Divina invade-me após o cumprimento dos deveres. 

Compreendo a minha responsabilidade no conjunto da vida em que me encontro e desligo-me dos conflitos. 

Lúcido, avanço, passo a passo, na conquista da consciência e harmonizo-me, integrando-me no conjunto da obra de Deus. 

Sereno e confiante, nada de mal me atinge.
Joana de Angelis

quinta-feira, 23 de maio de 2013

PRAZERES ESDRÚXULOS.



O mundo contemporâneo é pródigo em prazeres inusitados, esdrúxulos. O “gozo” é alcançado de formas inimagináveis. E aqui nem vou citar Lacan. Aliás, não entendo patavina alguma de Lacan!!

O prazer maior de alguns, por exemplo, é ser chato.

Outros se nutrem da crítica estéril e inútil dirigida a tudo e a todos, dando a ideia de que só eles prestam e são  “morais” e “ honestos”.

Outros ainda, só alcançam a felicidade quando aporrinham os “ amigos” ensinando cotidianamente “ fórmulas infalíveis” de felicidade: recitando poesias, mostrando vídeos, pensamentos óbvios, enfadonhos e ululantes que todos estão carecas de saber.

Tem aqueles que são uma espécie de “DOM QUIXOTE DAS DENÚNCIAS”. Vivem 24 h espiolhando problemas para denunciar como se eles ocupassem o posto de “parabólicas do mundo”.

E sua obsessão é tão intensa que chegam a denunciar até quem não deseja fazer uma denúncia, fazendo da vida um festival de denúncias infindas.

O meu maior prazer, dentro desse contexto de prazeres inusitados, é o de jogar no lixo CDs de músicas que considero verdadeiras misérias da razão. Aquelas que nem um capado é capaz de suportar por muito tempo.

Pois comprei um CD do tal Michel não sei das quantas. só  para ouvir um pouco e depois ter o prazer indescritível de jogar aquela asneira sonora no lixo.

Sei que alguns vão me chamar de idiota, pois ao comprar o CD estou engordando a já gorda conta bancária e os milhões que esse cantor ganha no Brasil inteiro. Tudo bem!

De qualquer forma, os neurocientistas ainda estão formulando teses sobre os processos químicos e neurais que envolvem e explicam as razões de determinadas coisas produzirem tanto prazer para determinadas pessoas.

Se for doença ou não, o fato é que até descobrirem a cura vou prosseguir jogando no lixo essas verdadeiras porcarias que denominam de músicas.

Afinal de contas: gosto e esse desejo eu não consigo reprimir.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

LIVROSE.

 
Talvez a pior psicopatologia contemporânea seja a denominada “livrose” (Compêndio de Psicopatologias, Luis Fernando Arbo. Editora Mania de Grandeza, 2011). A tal ponto que muito em breve, segundo pesquisadores de renome internacional – com pós-pós-doutorado- acabará superando a própria depressão.
A “livrose” caracteriza-se na crença obsessiva de que a leitura de determinados livros, transforma o homem em detentor de uma “luminescência” que o distingue dos “comuns mortais”.
O homem se transforma numa espécie de papagaio de pirata dos “ensinamentos livrescos”. Como se isso fosse a panacéia para tudo na vida. Terminam com discussões ou debates no argumento de que algum velho – sábio do passado já havia esgotado a interpretação “ mais correta e adequada” sobre a questão em debate. E ponto final!
O “gozo” de quem sofre de” livrose” é gabar-se de “estar lendo’ ou “ter lido” um livro que ninguém ( ou pouquíssimos) tenha lido: geralmente com algum título exótico a ponto de dar a entender que só os iluminados conseguem interpretar.
Esses dias, um amigo de Porto Alegre, mandou-me um chasque virtual só para informar que estava lendo a Hermenêutica Ontológica da felicidade: obra perdida de Santo Agostinho e com poucos exemplares no mundo.  Raridade absoluta!
Revelou-me isso ( da leitura de tal obra raríssima) com tamanho entusiasmo que representava que a leitura de tal obra pudesse fazê-lo transcender a finitude da vida, ganhando de bônus uns 400 anos de vida. Era mais que a descoberta da tal pedra filosofal: fórmula secreta para transformar qualquer metal em ouro.
Pior mesmo é quando o sujeito faz da leitura uma espécie de competição. Acumula uns 5 mil livros, portando-se como um sábio que ninguém ousa consultar. Quer pela arrogância que lhe é característica, humilhando quem não tenha interpretado algo da sua forma ou lido determinado livro; quer por uma tremenda incapacidade de sociabilidade e uma graúda amargura interior.
Há pessoas ( portadoras da livrose) que semeiam inimizades em uma simples e banal conversa sobre determinado livro. CASA GRANDE e SENZALA de Gilberto Freire é um exemplo disso. Escutei, certa feita, um doutor, após algumas cervejas, “xingando”  um colega quando este colocou em dúvida a importância do supracitado livro para a reinterpretação da raça pela cultura e outras salamandras que, tamanha a minha ignorância, não consegui entender. A discussão quase terminou em agressões físicas.
Até os meus 19 anos eu padecia do mais alto grau dessa doença. Era terrível contra os insetos! Mas, só contra os insetos!! Recordo-me que abandonei aos berros uma tertúlia diante da raquítica e vergonhosa declamação de uma poesia de Aureliano de Figueiredo Pinto . Alegava, à época, que antes de qualquer interpretação deveriam ler um livro sobre como se deveriam interpretar tais poesias. Eu só deixava fiasco! Que barbaridade!
Depois, o piá de bosta morreu em mim e fui percebendo que a verdadeira erudição era respeitar o pensamento alheio e discordar com educação e sem desequilíbrios patológicos.
Levar o “certo” longe demais o torna “ errado”. Ser enfadonho no uso da “inteligência” (ou da burrice) só faz acumular ciumentos e magoados. Isso sem mencionar dos que criam um Blog só com o propósito de te difamar.
A própria inteligência se esgota, dizia o meu amigo Baltazar.
O bom falcoeiro usa apenas os pássaros que a caça exige.
Melhor é preservar amizades!
Cuidado com a “livrose”.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

ZANGOCRACIA..

 
A “zangocracia” é aquilo que se denomina de” democracia dos zangados”. Passa longe da verdadeira democracia que aprendemos nas lições escolares ou em aulas de educação cívica.
““Na “zangocracia” vigora o” vale tudo”. A boa educação é jogada longe e quanto maior a canalhice, melhor. Caluniar, difamar, injuriar com o objetivo de fazer vingar uma suposta “ verdade”  é a regra.
Não importa se a mentira é ridícula e todos percebem os seus propósitos vis. Não importa se é uma incriminação, armação infame e leviana do mais elevado grau.
Não importa se o zangocrata tenha sido condenado pela Justiça e obrigado a pagar uma indenização a título de danos morais.  O único objetivo do zangocrata é destruir o suposto “inimigo” com as artimanhas covardes dignas de uma mente doentia.
 Isso está virando uma praga social!
Na internet os exemplos são inúmeros: com supostos “hackers” mandando vírus, denegrindo pessoas de bem, mandando fotos criminosas de supostas relações sexuais, esquemas de corrupção etc. Tudo fruto de mentes doentes.  De piás (pois creio que homens de verdade não fariam isso) que não sabem fazer outra coisa senão demonstrar a miserabilidade de suas vidas. Lamentável!
Vale até destruir lâmpadas para depois reclamar da escuridão. A maldade humana realmente não tem limites.
É fácil identificar um zangocrata. Ele está sempre zangado, ofendendo ou acusando alguém de algo. Todos são “ ladrões” e corruptos para ele. Só ele presta e é o baluarte da moral e da ética.
Qualquer debate de ideias com um zangocrata é algo por demais desigual. Como é que uma pessoa educada e de bons modos vai argumentar com quem só sabe ofender e vociferar impropérios  comportando-se como um cão raivoso? Impossível!
Ainda bem que os zangocratas são minoria.
 A grande maioria das pessoas sabe pensar e argumentar sem demonstrar afetação ou irrascibilidade. Sabem elas que democracia é conviver com opiniões e manifestações de pensamento, desde que esses pensamentos não agridam a reputação das pessoas, as leis e as regras sociais mínimas de convivência.
Mais do que quantidade, uma boa democracia precisa de QUALIDADE. Somente com respeito e harmonia a democracia se aperfeiçoa verdadeiramente.
De qualquer forma, temos que ser resilientes, ajudando e perdoando essas pessoas que só sabem destilar amarguras e ódios. Incapazes de qualquer ato de gratidão, talvez estejam gritando por socorro, sufocadas no fundo da prisão de rancor em que se colocaram.
É nossa missão ajudá-las  para que ,  sem qualquer exclusão, possamos construir uma sociedade melhor.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

DESCONFIANÇA COMO ESCRAVIDÃO..


 
 
O leitor sabe que meu pecado espiritual é o niilismo. Enfrento-o dia a dia como qualquer moléstia incurável. O tema já foi tratado por gênios como Nietzsche, Turguêniev, Dostoiévski, Cioran. Deixo meu leitor em companhia desses gigantes, muito melhores do que eu.
A tragédia também me acompanha em todo café da manhã, essa concepção grega de mundo que julgo a mais correta já pensada. Aqui tenho grandes parceiros como o autor da tragédia ática Sófocles (entre outros), o filósofo Nietzsche, o dramaturgo Shakespeare e os escritores contemporâneos Albert Camus e Philip Roth.
Ambos, niilismo e tragédia, são visões de mundo que arruínam a vida. Diante deles, ateísmo é para iniciantes. O ateísmo só é aceitável quando blasé e sem associações de ateus militantes. Para niilistas como eu, o ateísmo crente em si mesmo é brincadeira de meninas com fita cor-de-rosa amarrada na cabeça.
Ando de saco cheio do niilismo e da tragédia, apesar de continuar experimentando-os todo dia. Em termos morais, a virtude máxima para ambos é a coragem, e o vício mais a mão, a covardia.
Nos últimos tempos, tenho me interessado por outra virtude, a confiança, essa, tão difícil quanto a coragem, uma vez tomada a alma pelo niilismo e pela tragédia. É sobre ela que quero falar nesta segunda-feira, dia normalmente difícil, acompanhado do "bode" do domingo e da monotonia do dia a dia que recomeça imerso num sono que nunca descansa, porque sempre atormentado pela dúvida com relação ao amor, à família, ao trabalho e à viabilidade do futuro.
Meu maior pecado como escritor é jamais enganar, jamais querer agradar. Essa é minha forma de prestar respeito a quem me lê semanalmente. O caráter de alguém que escreve é medido pela ausência de desejo de agradar a quem o lê.
Amar cães e confiar neles é mais fácil do que amar seres humanos e confiar neles. Por isso, num mundo atormentado pela dúvida niilista, ainda que em constante denegação dela, tanta gente se lança à defesa melosa de cães e gatos e exige carne de frangos felizes na hora de comer em restaurantes ridículos.
Quero propor a você duas obras. Um filme e um livro que julgo entre os maiores exemplos da arte a serviço da confiança na vida.
O filme "As Damas do Bois de Boulogne", do cineasta francês Robert Bresson, de 1945, é uma pérola sobre a confiança na vida e nos laços afetivos. Bresson é um cineasta muito marcado pelo pensamento do escritor George Bernanos, grande anatomista da alma e especialista em nossa natureza vaidosa, mentirosa e, por isso mesmo, desesperada. Coisa para gente grande, rara hoje em dia, neste mundo governado por adultos infantis.
O filme trata da vingança de uma mulher belíssima contra seu ex-amante (que a abandonou), um homem frívolo e covarde por temperamento. Essa vingança se constitui na aposta de que ele e a mulher que ela "contrata" para sua vingança agirão do modo esperado. Sua intenção é fazer com que seu ex-amante se apaixone por essa mulher "contratada", uma prostituta.
O homem é mantido na ignorância da vida pregressa de sua noiva até depois do casamento. O que a mulher abandonada não contava é que a prostituta se apaixonasse pelo covarde, levando-o a transformação inesperada de caráter.
O amor também é personagem central da obra do dinamarquês Soren Kierkegaard "As Obras do Amor", da Vozes. Esse livro é o texto mais belo que conheço sobre o amor na filosofia ocidental.
Segundo nosso existencialista, o amor tudo crê, mas nunca se ilude porque, assim como a desconfiança e o ceticismo, o amor sabe que o conhecimento não é capaz de nada além do que fundamentar o niilismo, o ceticismo e o desespero.
O amor é um afeto moral, não um ato da razão. A razão não justifica a vida. O amor é uma escolha de investimento na vida, uma atitude, mesmo que a razão prove a falta de sentido último de tudo.
Ingênuos são os niilistas e céticos que consideram a desconfiança um ato livre da vontade. A desconfiança é uma escravidão. A aposta na vida é que mostra o caráter maduro de mulheres e homens. Boa semana.
 
 PARA ALÉM DO NIILISMO:Texto do grande mestre Luiz Felipe Pondé: filósofo, escritor e ensaísta.